Never Sleep Again

Estava realmente frio aquela noite. Nancy resolveu fechar a janela do seu quarto, pois se não o fizesse provavelmente pegaria um resfriado. Ficou observando o lado de fora por tempo suficiente para ver pequenos flocos de neve surgirem no céu. Suspirou. Se este inverno cismar em ser tão rigoroso quanto o do último ano, provavelmente teria que passar todo o feriado de Natal e Ano Novo limpando a neve da calçada de sua casa novamente.
Sem sair da janela, olhou para o relógio-despertador que se encontrava em cima do criado-mudo ao lado de sua cama. Uma e meia da manhã e nada do sono chegar. Ele nunca chega. Não depois daquela noite.

Há quase três semanas, Nancy havia arranjado um emprego de meio-período em um orfanato que se encontrava do outro lado da cidade. Em um dia comum de trabalho – já quase no fim de seu expediente -, foi solicitada pela jardineira do local para pegar uma tesoura no porão, pois ela havia esquecido a sua.
Procurou por todo o cômodo, mas não achou a tal tesoura. Já estava subindo as escadas quando notou que uma parte da parede do local parecia estar mais profunda que o resto do lugar. Pensou em ignorar o fato e terminar o seu trabalho, mas, no fim, foi vencida por sua curiosidade. Maldita curiosidade. Um dia isso ainda iria acabar com ela, tinha certeza.
Sujando sua mão de poeira, empurrou a parte mais profunda da parede revelando uma pequena entrada. Exitou antes de avançar, tinha medo de acabar morrendo sufocada ali dentro. Se o cheiro de mofo já era ruim no porão, imagine naquele lugar. Mas era tarde demais para voltar atrás, seu sensor de “curiosidade extrema” fora ativado e sabia que, se não penetrasse no local misterioso certamente ficaria pensando naquilo por muito tempo e não haveria mais nenhuma possibilidade de ter sossego.
Um quarto. Ficou surpresa a constatar tal coisa, mas não havia dúvidas: ali, algum dia havia sido o quarto de alguém. “Algum dia” porque podia-se observar evidencias concretas de que nenhuma alma viva frequentara aquele lugar a muito tempo. Os poucos móveis, as paredes e o chão estavam cobertos por uma grossa camada de poeira e, além disso, o cheiro era demasiado forte – sua previsão de que ele seria pior que o odor que sentira no porão estava correta. Nenhum ser humano normal conseguiria viver nessas condições.
Mas quem morou naquele lugar? Para tentar responder esta pergunta, resolveu vasculhar uma espécie de mesa, que se encontrava encostada na parede do lado esquerdo do quarto. Não havia muita coisa além de mais e mais poeira cobrindo-lhe toda a superfície. Três livros sobre jardinagem, uma caixinha azul e uma tesoura de jardinagem muito enferrujada. Sem mais opções, pegou a caixa para examiná-la.
Fotos. Havia fotos dentro dela.
Horror. Foi o que Nancy sentiu enquanto as observava. Mas logo este sentimento foi transformado em raiva, ódio. Puro ódio. Que tipo de ser humano teria coragem para fazer algo assim? Não, não era um ser humano, era um monstro.
Monstro, monstro. Só um monstro faria aquilo.
Jogou as fotos no chão. Não conseguia mais olhá-las sem que lágrimas brotassem em seus olhos.
Com um pouco de dificuldade tentou se dirigir a saída, mas caiu. Uma madeira – pouco resistente e deteriorada com o tempo – não suportou o seu peso e fez com que sua perna ficasse presa na parte oca do chão.
Tentou retirar sua perna, mas doía. Dor, dor. Não adiantava, estava praticamente entalada e, aparentemente, machucada. Podia sentir um pedaço da madeira atravessando a carne de sua panturrilha e um líquido quente descendo em suas pernas. Não havia meios de escapar daquela situação sozinha.
Com cuidado, pegou seu celular no bolço traseiro de sua calça e discou o número da recepção do orfanato.
– Orfanato Bellborn, em que posso ajudá-lo? – a voz da atendente soou do outro lado da linha.
– Katie, é Nancy! Será que você poderia mandar alguém ao portão? Eu…
E parou de falar. Silêncio, silêncio. Medo, medo. Sentiu algo gelado descer da boca do estômago até a parte de baixo de sua barriga e alguns arrepios atravessando sua espinha como choques elétricos. Medo, medo, medo. Mas que porra era aquela?
Não conseguiu segurar o grito que tentava escapar de sua garganta. Ignorando os chamados da colega de trabalho, jogou o celular para longe e levantou-se com toda a força que possuía abrindo ainda mais sua ferida, todavia, se livrando do “aprisionamento”. Se afastou o máximo que pode do buraco, alguma coisa havia agarrado seu pé enquanto este estivera lá dentro.
Sangue, sangue. Vermelho. O mundo era completamente vermelho agora. Tentou fugir do quarto, mas não conseguiu alcançar a saída… Parecia tão longe agora. Sua vista começava a embaçar, fazendo-a perder completamente o equilíbrio e sentar-se no chão.
– Obrigado por me libertar, meu anjo. – uma voz assustadoramente grave ecoou através das paredes do cômodo.
Não sabia quem estava falando, não havia mais ninguém naquele lugar. Estava delirando. Louca, louca. Talvez consequência da perda execiva de sangue. Não, não. Parecia tão real, era real. Aproveitou o último resquício de foco que havia restado em seu olho e concentrou-se no buraco. Havia alguma coisa saindo dali, tinha certeza.
Arrastou-se, com dificuldade, pelo quarto – deixando um visível rastro de sangue por onde passava – parando apenas quando suas costas entraram em contato com a parede mais distante do buraco. Não desviou os olhos cor de esmeralda dele nem por um segundo e – no momento em que seu cérebro conseguiu processar a imagem que foi lhe foi enviada – eles se arregalaram.
Mão. Uma mão estava saindo do buraco. Uma mão humana.
E, então, tudo ficou negro.

A menina estremeceu enquanto recordava novamente aquela noite. A voz, a mão… Na hora do incidente, ela possuía a absoluta certeza de que aquilo era real. Mas agora, protegida em seu quarto, pensava que tudo não passava de um mero delírio ocasionado pela perda demasiada de sangue.
O real problema era quando dormia. Sempre que fechava os olhos a voz estava lá, zombando dela… Corria, tentava de toda maneira fazê-la desaparecer, mas era inútil. Ela continuava lá, rindo dela, falando coisas maldosas e depois, oculto pelas sombras, um homem aparecia e arrancava do seu sofrimento. Faca, arma de fogo, uma corda, não importa, ele sempre conseguia fazê-la parar de sofrer. Morta. Ás vezes pensava que morrer realmente poderia ser uma boa opção.
Olhou para o curativo em sua perna e sorriu. Mas que besteira estava pensando? Deveria estar com sono, para cogitar coisas tão sem sentido. Tentou se convencer de que apenas estava passando por um período pós-trauma. Afinal, três semanas atrás, havia encontrado provas – fotos, mais precisamente – que condenava um homem desaparecido a quase dez anos pelo estupro de algumas mulheres e, no mesmo dia, desenterrou sem querer o corpo do tal homem. Sim, o corpo dele se encontrava na parte oca do chão do quartinho secreto.
E era para lá que ele levava suas vítimas.
Estremeceu. Era melhor que dormisse. Olhou mais uma vez pela janela, observando os flocos de neve – cada vez mais rápidos – cobrirem espessamente toda a extensão da rua em que morava. Desejava fervorosamente que o dia seguinte fosse banhado pela luz do sol, para assim todo esse espaço – agora branco – pudesse se ver livre de tal empencílio.
Deitou em sua cama e abraçou o travesseiro, aconchegando-se. Talvez, esta noite ela tivesse uma noite sem sonhos. Uma noite sem pesadelos. Uma noite sem ele.

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